Há muito tempo atrás, quando tinha os meus dezessete anos, consegui o meu emprego de carteira assinada. Ainda lembro como se fosse hoje, quando fui designado para atuar no setor de cobrança de uma grande loja de eletrodomésticos, chamada Carvalho Dutra, onde iniciei o meu aprendizado na vida profissional.
Naquele departamento, tive a oportunidade de trabalhar na companhia de um ancião, chamado Sr. Abílio, pessoa muito simpática, e generosa, que pacientemente, ensinou-me passo a passo, todos os procedimentos daquele departamento. Algo naquele homem, começou a chamar-me a atenção, talvez a sua maneira de falar, pausadamente, mesclada de mansidão, sabedoria e objetividade, que sempre o mantinha no controle da situação, por mais adversa que fosse.
A medida que os dias passavam, maior se fazia a minha admiração por aquele homem e a partir daí, surgiu a curiosidade de desvendar qual a razão daquela conduta. Portanto, todas as vezes que conversamos, procurava, um meio de descobrir o verdadeiro segredo. Em fim, encontrei o que procurava; ele era um mestre maçom; e daí por diante, comecei a interessar-me pela maçonaria e atentamente ouvia o que aquele bondoso homem me falava a respeito daquela instituição.
Inicialmente falou sobre os seus objetivos, em seguida, sobre sua atuação na política em todo território nacional, e nos intercâmbios internacionais, como também, nas obras sociais. Falou-me ainda das festas brancas, ou seja, aquelas em que a maçonaria, abre suas portas aos convidados e familiares dos maçons, durante algumas festividades, como o dia das mães, o dia da independência etc.
Quando completei a maior idade, fui dispensado daquela empresa, a fim de prestar serviço militar, e por força da circunstância, tive que me separá daquele que compartilhou comigo, somente coisas boas, e que só me fizeram crescer. Sempre que lembro do Sr. Abílio, logo me vem à mente um precioso conselho, que ele me havia dado: "O homem não é aquilo que fala, e sim, aquilo que faz."
Apesar do forte desejo de ingressar naquela organização, isso somente aconteceu muitos anos depois; quando já havia constituído uma família e trabalhava numa multinacional, onde havia muitos colegas maçons, que muito aconselharam para que eu desistisse daquela ideia, porém, sem dar nenhuma atenção aos seus apelos, ingressei na maçonaria.
Quando comecei a participar dos trabalhos maçônicos, fiquei bastante empolgado com aqueles ensinamentos; tudo, tinha um significado especial, sendo que muitas coisas eram tiradas da Bíblia Sagrada. Durante o tempo que lá permaneci, ascendi até o grau 3 (mestre maçom). Onde cheguei a ocupar o cargo chanceler, colaborando incansavelmente em todas as missões que me foram designadas, como também, pude realizar um bom trabalho na restruturação do cadastro dos obreiros.
Recordo, que juntamente comigo, foram iniciados mais quatro pessoas: eu (funcionário de uma multinacional), L (engenheiro, proprietário de duas lojas de tintas e criador de gado), A (vendedor de uma fábrica de tintas), Ab (advogado e criador de gado) e J (proprietário de um mercadinho). E quando o obreiro L, ao assumir a tesouraria, procurando mostrar serviço, criou a cobrança de multa e juros, para todos os membros que pagassem a mensalidade, após o vencimento.
Acontece, que aquele obreiro, sempre apresentava um baixo índice de frequência, motivado pelas viagens de negócios, relacionadas com as lojas e problemas com o gado. Devido a esse fato, o procurei para quitar a mensalidade, que venceria no dia 05 do mês seguinte e o mesmo recusou-se a receber, alegando que eu tinha muito tempo pela frente, e que estava com pressa de viajar para sua fazenda ainda naquela noite. Então eu retruquei: não seja o caso de você regressar após o vencimento e querer cobrar indevidamente, juros e multas.
E como eu havia previsto, o mesmo só retornou após o dia 5, e quando quis efetuar o pagamento, ele afirmou que só receberia com juros e multa, não levando em conta os meus argumentos. Foi então que procurei o venerável mestre, V (gerente de operação do Pão de Açúcar), que era a maior autoridade dentro da loja, e que dentre outros atributos, tem a obrigação de julgar com equidade todas as questões que lhe chegarem; e lhe contei detalhadamente tudo o que havia ocorrido. E para minha surpresa, ele comentou que aquele problema deveria ser resolvido com o tesoureiro. Sem pensar duas vezes, retornei a aquele cidadão e pedi que calculasse até os segundos do que eu teria que pagar, e lhe falei que aquele fato, jamais voltaria a acontecer e imediatamente me retirei.
Já na minha casa, comecei a refletir sobre tudo aquilo que eu tinha vivenciado naquela noite, e então comecei a compreender o porque, daqueles colegas de trabalho me pedirem veementemente para que eu não ingressasse na maçonaria: eles queriam me poupar de tão grande decepção. Naquele instante lembrei das palavras do sr. Abílio ("o homem não é aquilo que fala, e sim o que faz") e assim, através daquela conduta reprovável do tesoureiro, e do venerável mestre, eu pude então conhecer, o verdadeiro caráter de cada um.
Um fato, que sempre me chamou a atenção naquela loja, foi a existência de uma igrejinha formada pelo tesoureiro, o venerável mestre e mais outros quatro maçons, que tinham uma situação financeira bastante admirável, que agiam sempre em concordância e costumeiramente trocavam favores. Outro fato relevante, é a contradição existente entre o lema (LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE), e a conduta não condizente de muitos maçons, que assim procuram denegrir a imagem de uma organização tão respeitada.
Na realidade, não era isso que eu esperava encontrar, até porque, para que um candidato pudesse ingressar na maçonaria, era necessário que ele atendesse os seguintes pre-requisitos: Tempo, Pecúnia e Conduta Ilibada, e assim, como sucedeu comigo, muitos outros também foram constrangidos e não encontraram razão para que ali permanecessem. No meu caso, alguns anos depois, descobri a existência de pontos divergentes do meu credo religioso, razão pela qual, também teria que me afastar, contudo, gostaria que a minha decisão, fosse justificada pela segunda condição.
Voltando ao ponto, após o infeliz episódio daquela noite, eu decidi pelo meu afastamento, que ocorreu na reunião seguinte, onde solicitei o meu desligamento, em caráter irretratável e irrevogável, justificada por uma questão de fórum íntimo. Depois da leitura da minha carta, foi gerada uma situação desagradável naquele momento, pois eu gozava de um bom conceito e sempre fui atuante; infelizmente, a reunião seguiu meio descompensada e quando a palavra já se encontrava no oriente, retornou para o ocidente (o que não deve ocorrer), e mais uma vez o meu desligamento voltou a ser debatido, e mesmo diante de tanta insistência, eu não delatei ninguém, e assim, procurei evitar que os meus ofensores, fossem envergonhados e servissem de espetáculo diante de muitos visitantes naquela noite.
Assim foi a minha trajetória na maçonaria, talvez tentando buscar, na pessoa de cada maçom, a imagem do sr. Abílio, entretanto, nem todos os sonhos podem ser realizados na vida de uma pessoa, dependendo as vezes do local escolhido, conduto, para o nosso consolo, poderemos encontrar o nosso ideal um pouco mais além.
Antônio Saldanha
Quando completei a maior idade, fui dispensado daquela empresa, a fim de prestar serviço militar, e por força da circunstância, tive que me separá daquele que compartilhou comigo, somente coisas boas, e que só me fizeram crescer. Sempre que lembro do Sr. Abílio, logo me vem à mente um precioso conselho, que ele me havia dado: "O homem não é aquilo que fala, e sim, aquilo que faz."
Apesar do forte desejo de ingressar naquela organização, isso somente aconteceu muitos anos depois; quando já havia constituído uma família e trabalhava numa multinacional, onde havia muitos colegas maçons, que muito aconselharam para que eu desistisse daquela ideia, porém, sem dar nenhuma atenção aos seus apelos, ingressei na maçonaria.
Quando comecei a participar dos trabalhos maçônicos, fiquei bastante empolgado com aqueles ensinamentos; tudo, tinha um significado especial, sendo que muitas coisas eram tiradas da Bíblia Sagrada. Durante o tempo que lá permaneci, ascendi até o grau 3 (mestre maçom). Onde cheguei a ocupar o cargo chanceler, colaborando incansavelmente em todas as missões que me foram designadas, como também, pude realizar um bom trabalho na restruturação do cadastro dos obreiros.
Recordo, que juntamente comigo, foram iniciados mais quatro pessoas: eu (funcionário de uma multinacional), L (engenheiro, proprietário de duas lojas de tintas e criador de gado), A (vendedor de uma fábrica de tintas), Ab (advogado e criador de gado) e J (proprietário de um mercadinho). E quando o obreiro L, ao assumir a tesouraria, procurando mostrar serviço, criou a cobrança de multa e juros, para todos os membros que pagassem a mensalidade, após o vencimento.
Acontece, que aquele obreiro, sempre apresentava um baixo índice de frequência, motivado pelas viagens de negócios, relacionadas com as lojas e problemas com o gado. Devido a esse fato, o procurei para quitar a mensalidade, que venceria no dia 05 do mês seguinte e o mesmo recusou-se a receber, alegando que eu tinha muito tempo pela frente, e que estava com pressa de viajar para sua fazenda ainda naquela noite. Então eu retruquei: não seja o caso de você regressar após o vencimento e querer cobrar indevidamente, juros e multas.
E como eu havia previsto, o mesmo só retornou após o dia 5, e quando quis efetuar o pagamento, ele afirmou que só receberia com juros e multa, não levando em conta os meus argumentos. Foi então que procurei o venerável mestre, V (gerente de operação do Pão de Açúcar), que era a maior autoridade dentro da loja, e que dentre outros atributos, tem a obrigação de julgar com equidade todas as questões que lhe chegarem; e lhe contei detalhadamente tudo o que havia ocorrido. E para minha surpresa, ele comentou que aquele problema deveria ser resolvido com o tesoureiro. Sem pensar duas vezes, retornei a aquele cidadão e pedi que calculasse até os segundos do que eu teria que pagar, e lhe falei que aquele fato, jamais voltaria a acontecer e imediatamente me retirei.
Já na minha casa, comecei a refletir sobre tudo aquilo que eu tinha vivenciado naquela noite, e então comecei a compreender o porque, daqueles colegas de trabalho me pedirem veementemente para que eu não ingressasse na maçonaria: eles queriam me poupar de tão grande decepção. Naquele instante lembrei das palavras do sr. Abílio ("o homem não é aquilo que fala, e sim o que faz") e assim, através daquela conduta reprovável do tesoureiro, e do venerável mestre, eu pude então conhecer, o verdadeiro caráter de cada um.
Um fato, que sempre me chamou a atenção naquela loja, foi a existência de uma igrejinha formada pelo tesoureiro, o venerável mestre e mais outros quatro maçons, que tinham uma situação financeira bastante admirável, que agiam sempre em concordância e costumeiramente trocavam favores. Outro fato relevante, é a contradição existente entre o lema (LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE), e a conduta não condizente de muitos maçons, que assim procuram denegrir a imagem de uma organização tão respeitada.
Na realidade, não era isso que eu esperava encontrar, até porque, para que um candidato pudesse ingressar na maçonaria, era necessário que ele atendesse os seguintes pre-requisitos: Tempo, Pecúnia e Conduta Ilibada, e assim, como sucedeu comigo, muitos outros também foram constrangidos e não encontraram razão para que ali permanecessem. No meu caso, alguns anos depois, descobri a existência de pontos divergentes do meu credo religioso, razão pela qual, também teria que me afastar, contudo, gostaria que a minha decisão, fosse justificada pela segunda condição.
Voltando ao ponto, após o infeliz episódio daquela noite, eu decidi pelo meu afastamento, que ocorreu na reunião seguinte, onde solicitei o meu desligamento, em caráter irretratável e irrevogável, justificada por uma questão de fórum íntimo. Depois da leitura da minha carta, foi gerada uma situação desagradável naquele momento, pois eu gozava de um bom conceito e sempre fui atuante; infelizmente, a reunião seguiu meio descompensada e quando a palavra já se encontrava no oriente, retornou para o ocidente (o que não deve ocorrer), e mais uma vez o meu desligamento voltou a ser debatido, e mesmo diante de tanta insistência, eu não delatei ninguém, e assim, procurei evitar que os meus ofensores, fossem envergonhados e servissem de espetáculo diante de muitos visitantes naquela noite.
Assim foi a minha trajetória na maçonaria, talvez tentando buscar, na pessoa de cada maçom, a imagem do sr. Abílio, entretanto, nem todos os sonhos podem ser realizados na vida de uma pessoa, dependendo as vezes do local escolhido, conduto, para o nosso consolo, poderemos encontrar o nosso ideal um pouco mais além.
Antônio Saldanha
O sonho faz parte das nossas vidas, pois, quando perdemos a capacidade de sonhar, é porque a vida perdeu o verdadeiro sentido. E é nessa ocasião que a angústia ocupa o lugar vazio e tenta nos consternar e deprimir.
ResponderExcluirNão importa se alguns sonhos não passaram de uma mera ilusão, o importante é continuarmos sonhando, pois isso é que nutre em nós o desejo de realizar, e nos mantêm vivos!